Antes dos Trovadores,
que animavam as cortes da Idade Media, tinham surgido grupos musicais –
Trupes – que circulavam de terra em terra, alegrando, com a sua arte, quer
as festas e romarias populares, quer as celebrações religiosas. Tropare,
“ era uma porta que se abria do formalismo liturgico para a liberdade da
criação artística e o tropo veio a assumir enorme importância na
historia da composição musical e até no teatro, através do ‘drama sacro’
medievo” (“Historia da
Musica Portuguesa”, de João de Freitas Branco, Publicações Europa América,
2ª Edição, 1995).
No nome deste grupo,
está implícita a ideia de que fazemos Tábula Rasa de todos os
preconceitos sobre o que é ou deve ser um grupo coral/musical. Assim, a liberdade de
criação artística é o nosso mote para criar Concertos Encenados,
cujo carácter resulte da combinação de criteriosa interpretação musical com
dramatização, enquadrados por adereços e figurinos que tornem o concerto tão
singular e apetecível para os ouvidos do melómano, como para os olhos de
todos aqueles que gostam de fazer, de ver/ouvir, ideias vivas e em
movimento.
ODE A BACO
A Ode a Baco -Vinho Divino- é uma
festa. Eis como numa palavra se descreve o espectáculo. Um encontro de
amigos que à volta de uma mesa se juntam para partilhar a comida e o vinho:
Oy comamos y bebamos
diz
a primeira canção que entoam, após se postarem à volta da mesa.
Y cantemos y
holguemos
continuam,
pois a partilha só é festa se tiver música e só vale a pena se tudo isso
servir para todos se divertirem,
que mañana ayunaremos
sim, mañana, amanhã far-se-á
jejum, hoje o dia é de algum excesso –que não todo, pois que esse excesso
permitido não pode passar os limites do sentido do encontro: liberdade de
expressão, coordenação dos gestos, a afinação do conjunto.
O espectáculo-festa-concerto continua,
com canções de várias épocas e lugares, tendo como leitmotiv o vinho,
os seus efeitos –benéficos e maléficos-, as suas motivações e as suas
consequências, do prazer mais refinado à tragédia mais pungente.
Mas
afinal... afinal, o que era, era teatro. E a festa continua, chamando o
público a participar nela –por isso, a importância do ambiente, o
a-propósito de o público dispor também de um copo e de algum precioso néctar
e, sobretudo, de boa disposição.
Que o público veja, ouça, prove e faça uso de todos os sentidos, mais
daquele muito especial que a disposição para o vinho suscita, abrindo o
espírito para a música e para o teatro.
E o teatro imita a vida: um copo entre
amigos, dois dedos de conversa (em verso) e muitas peças cantadas (de várias
épocas e em várias línguas).
E assim, animado deste espírito da
festa do vinho, da comida, dos mais lídimos prazeres, possa o público dizer
também:
Bebe vinho! Receberás vida eterna!
O vinho é o único filtro
capaz de restituir-te a juventude.
Oh!, divina estação das
rosas, do vinho e dos amigos sinceros!
Goza este fugitivo instante
que é a vida!
Depois... bom, depois, ou antes,
compreenda-se o sentido do vinho como elemento de sacralização do real
(“fruto da videira e do trabalho do homem e que para nós se vai tornar...”),
mesmo que num contexto, à primeira vista, pagão.
O vinho não é
mera bebida, ou entorpecente das pernas, da língua e dos sentidos, mas
pretexto para o aguçar da atenção, para a melhor fruição da boa companhia
dos amigos e do prazer da música e da alegria do teatro.
Por isso, cantamos,
“Istud vinum, bonum vinum!
Vinum generosum!”
Eis o
vinho, o bom vinho, o vinho generoso que a Trupe Tábula Rasa se propõe
servir -em dose certa, de castas seleccionadas e estágio regulamentar: em
suma –e sumo- um CQPRD (Concerto de Qualidade Produzido em Registo
Determinado
BÁ - BÁ - DU - WEE
SINOPSE
Com
estas palavras que lhe dão o título, o espectáculo começa como exercício de
técnica vocal, enquanto os artistas abrem e fecham círculos onde eles
próprios se encerram à vez, a dizer que quem se mete em músicas, nunca mais
de lá sai...
A
Trupe Tábula Rasa apresenta mais um Concerto Encenado, com música das
diferentes Américas – EUA, México, Cuba, Argentina, Brasil, o que é o mesmo
que dizer: o Jazz, a Soul, a Rumba, o Tango, o Samba e a Bossa Nova.
Ora,
como cantigas leva-as o vento, diz o Povo, os artistas não se limitam a
cantar; ao canto juntam a dança e dessa mistura surge a voz da dança, ou
seja, o sapateado.
A
coisa às vezes sai um bocado torta, é certo. Mas –uma vez mais, a voz do
Povo!- quem te manda, ó sapateiro, tocar rabecão?
Se
uns são exímios bailarinos, outros parecem desconexos; se uns se apresentam
como naturalmente estáticos, outros não. Cantam, apenas. Pois esta é uma
trupe democrática, só canta quem quer dançar, só dança quem quer cantar e
quanto ao cantar e dançar, vai do começar, lá diz aquele de que falávamos há
pouco.
Assim estes figurões, que os figurinos realçam, dialogam entre si e com o
público numa sucessão de canções, ora românticas, ora nostálgicas, ora
lúdicas, ora onomatopaicas. Diversidade, eis a pedra de toque desta
proposta: diversidade de estilos, de origens, de maneiras de cantar.
Surge então um ambiente de festa para todas as idades, com música vocal a
quatro vozes, a que o público se associa com entusiasmo. O espectáculo é
também acompanhado por um trio instrumental de Piano, Baixo e
Bateria/Percussão, cuja sonoridade o envolve numa ambiência peculiar.
Bá-bá-du-wee é uma criação de Luis Bragança Gil, que assina a selecção
musical, os arranjos instrumentais e a direcção musical, com coreografias de
Michel, desenho de luzes de João Carlos Andrade e figurinos de Filipe
Faísca.